Coaching Emocional 

As emoções apresentam implicações quer no ajuste psicológico, quer no comportamento, assim como na associação com sintomatologia física, merecendo por isso destaque por parte da Psicologia e do Coaching, que amplamente têm estudado este fenómeno (Salovey et al., 2000). Além disto, vários são os estudos que realçam a pertinência da intervenção psicoterapêutica como treino da capacidade de regulação emocional por parte dos indivíduos (Berking, 2010; Berking et al., 2010; Gottman, & Decleire, 1999).


As emoções

 

As emoções informam-nos das nossas necessidades, das nossas frustrações e dos nossos direitos, elas motivam-nos para fazermos mudanças, para escaparmos de situações difíceis, ou para sabermos quando estamos satisfeitos. No entanto, há muitas pessoas que se sentem subjugadas pelas suas emoções, receosas dos seus sentimentos e incapazes de enfrentar as situações porque elas acreditam que a sua tristeza ou ansiedade não permitem um comportamento eficaz (Leahy et al., 2011, p. 1). Isto leva-nos a refletir sobre a relevância que as emoções assumem no nosso quotidiano. O autor Damásio (2004) refere que as emoções apresentam um papel regulador responsável, pela forma como o indivíduo se expressa e gere as situações e/ou circunstâncias, salientando que as emoções fazem parte do corpo do individuo e tendo como principal finalidade a manutenção da vida.

 

O que é a emoção?


A sua definição não é fácil. A emoção interfere em todas as dimensões da vida do individuo, como a cognição, o comportamento e até ao nível biológico, onde o seu impacto é suscetível de determinar saúde ou doença. Antes de mais, as emoções devem ser vistas como reações do organismo humano, em resposta a estímulos que vêm de fora do corpo ou de dentro dele, sendo por isso uma forma de energia mental que produz reações no organismo que contribuem para a decisão, socialização e sobrevivência (Santos, 2000). A emoção pode ainda ser definida como reações subjetivas que podem ser positivas e negativas a acontecimentos relevantes para as preocupações do indivíduo, envolvendo pensamentos e sentimentos específicos, associados cada um a uma determinada resposta comportamental e fisiológica (Koole, Dillen & Sheppes, 2011).

 

Outro aspeto que torna complexa definição de emoções é a sua confusão concetual com os sentimentos. Segundo Damásio (2010), embora possam ser confundíveis, estes são processos distintos - as emoções são programas complexos e, sobretudo, ações levadas a cabo no nosso corpo. Por outro lado, os sentimentos de emoção são perceções compostas daquilo que acontece no corpo e na mente quando sentimos emoções.

 

Expressão e Resposta Emocional

 

Segundo Damásio (2004), todos os seres humanos, independentemente do sexo, idade, cultura, nível escolar e/ou económico expressam emoções. Todavia, para Greenberg (2002), são estes mesmos fatores que influenciam a forma como as expressamos, principalmente a influência da família, dos grupos sociais e da cultura. Além disto, este autor destaca ainda a importância que a expressão emocional adquire para os indivíduos, na medida em que permite a consciência do estado emocional.

 

O autor Saarni (1999) menciona que a expressão emocional consiste numa aquisição de guiões culturais que ligam a emoção aos papéis sociais. Procurando definir expressão emocional, Ekman (1993) refere que esta compreende uma ou mais emoções que ocorrem em resposta a um acontecimento, normalmente social, podendo este ser real, recordado, antecipado ou imaginado. Mckay e colaboradores (2011) revelam que a parte mais evidente de uma emoção é o afeto, que tem a sua origem na área límbica do cérebro, produzindo um estado de intenção de algum tipo de ação, como a retirada, a agressão ou a luta.

 

Outro aspeto associado sempre à resposta emocional são as sensações físicas, por exemplo, quando estamos ansiosos, existe uma elevação da frequência cardíaca, uma aceleração da respiração e consequentemente uma aumento da transpiração. Por último, os comportamentos orientados pela emoção são induzidos pelo desejo de ação, por exemplo no caso da ansiedade os comportamentos adotados são de evitação.

 

Categorização das Emoções

  

Na sua obra, Damásio (2003) categoriza as emoções em três tipos, nomeadamente, de fundo, primárias e sociais.

Emoções de fundo - Estas emoções são manifestações subtis compósitas de certas combinações de reações regulatórias simples à medida que elas se desenrolam e intercetam momento a momento.

Emoções Primárias - Emoções básicas que compreendem reações facilmente identificadas nos seres humanos e não humanos face a determinado estímulo e que são influenciadas por múltiplos fatores.

Emoções Sociais - Emoções desencadeadas em situações sociais, desempenhando papéis de destaque na vida dos grupos sociais.


Por sua vez, Davidson e Irwin (1999) abordam as emoções segundo o ponto de vista motivacional, propondo assim dois tipos de emoções:

Emoções negativas, associadas a uma fonte de estímulo aversiva que gera um afeto negativo, facilitando um comportamento de afastamento.

Emoções positivas, associadas a experiências afetivas positivas que promovem um comportamento de aproximação.
 

Numa revisão da literatura, Melo (2005), sintetizou quais as principais emoções positivas e negativas mais usualmente referidas. As emoções positivas mais referidas na literatura são a alegria, o interesse e o orgulho (Melo, 2005), sendo que as suas caracterizações deixam implícito a componente motivacional associada que nos permite afirmar, de acordo com Davidson e Irwin (1999), que estas emoções promovem um maior bem-estar subjetivo, reforçando os comportamentos de aproximação com os estímulos.

 

Quanto às emoções negativas, de acordo com Melo (2005), a literatura refere uma maior quantidade deste tipo de emoções, sendo claro para este autor o impacto nefasto que estas têm para o bem-estar subjetivo e para a qualidade de vida dos indivíduos que as experienciam. Stamateas (2011) reforça isto mesmo, dizendo que as emoções negativas tornam-se de tal forma tóxicas, que começam a dominar a vida do individuo, retirando-lhe a energia e perspetivas de futuro.

 

Regulação Emocional

 

Ao longo das duas últimas décadas, a compreensão das emoções começou a ser enfatizada, procurando compreender-se a influência dos processos emocionais no desenvolvimento e na adaptação do ser humano.


Quando falamos de regulação emocional falamos de um conjunto de competências e/ou capacidades que possibilita aos indivíduos regularem as suas emoçõespermitindo-lhe experienciar e expressar essas mesmas emoções (Gratz & Romer, 2004; Gross, 2002; Koole et al., 2011). Goleman (2007), baseado na sua teoria sobre a inteligência emocional, define as competências emocionais, como capacidades aprendidas mediante o desempenho anterior na gestão das emoções, que dependem consistentemente dessa inteligência emocional. Para este autor, a inteligência emocional determina o potencial de cada indivíduo para aprender aptidões práticas que se baseiam em cinco elementos, nos quais se enquadra a competência pessoal que determina a forma como a pessoa se gere a si mesma. Salovey e Mayer (1990) referem-nos que estas competências são:

Autoconsciência - Saber o que é sentido no momento.

Autogestão - Gerir as emoções.

Motivação - Usar as preferências mais profundas para avançar e guiar para os objetivos.

Empatia - Ter a perceção do que as pessoas sentem.

Gestão social - Gerir bem as emoções nas relações e ler com precisão as situações sociais e as redes.

 

Segundo Koole e colaboradores (2011), é que a ausência de uma ou mais competências emocionais pode revelar a presença de dificuldades ao nível da regulação emocional, levando à desregulação emocional. Para Leahy e colaboradores (2011), a desregulação da emoção é identificada como a dificuldade ou incapacidade de lidar ou de processar a experiência emocional, podendo esta manifestar-se como intensificação excessiva ou desativação excessiva da emoção.

 

Leahy e colaboradores (2011) referem que os indivíduos que enfrentam uma experiência stressante experimentam, geralmente, uma intensidade crescente de emoção que, por si só, é mais uma causa de stress e, consequentemente, mais expressão emocional. Por exemplo, o fim de uma relação afetiva para um indivíduo está normalmente associado a emoções como tristeza, raiva, ansiedade, desespero e até sentimentos de alívio. Contudo, à medida que estas emoções se tornam mais intensas, a pessoa pode começar a ter comportamentos de abuso de drogas e/ou álcool, comer descontroladamente, insónias ou criticar-se a si mesmo.

 

É um dado adquirido que as dificuldades que causam a desregulação emocional estão associadas a manifestações psicopatológicas. Perante esta realidade, fica clara a pertinência dos indivíduos adotarem um papel ativo no treino e no desenvolvimento das suas competências emocionais, nomeadamente, na compreensão e na capacidade de enfrentar sentimentos perturbadores, no controlo dos impulsos e na empatia (Gottman & Decleire, 1999).

 

Quanto à importância da noética e da cognição para a sobriedade emocional, constatou-se que as cognições dinamizam e sustentam os estados emocionais e o impacto emocional expresso no comportamento (Arándiga & Tortosa, 2000), assim como as emoções têm efeitos consideráveis nas cognições que influenciam a perceção do indivíduo em função da atribuição de significados, facilitando ou não, a evocação de memórias (Belzung, 2010).

 

inteligência emocional foi um dos maiores contributos por parte da Psicologia, constituindo como incontornável quando nos referimos à regulação das emoções, pois esta compreende aspetos fulcrais na regulação e transformação das emoções inadequadas como reflexão, criação de significado e empatia (Greenberg, 2002). Como anteriormente referido, a inteligência emocional compreende o potencial individual para gerir as emoções (Goleman, 2007).

 

coaching emocional foi outro dos contributos recentes, que de acordo com Greenberg (2002), permite ajudar o indivíduo a usar a emoção de forma inteligente visando a resolução dos problemas vivenciados. O coaching emocional refere-se especificamente ao desenvolvimento de capacidades em torno das questões emocionais, sendo assim um processo de transformação, orientado para o futuro, em que o coach (facilitador) e o coachee (cliente) trabalham em conjunto para alcançar objetivos importantes para o bem-estar (Hromek, 2007), nomeadamente promoção da consciência das emoções, onde é importante ajudar o indivíduo a ter consciência de suas emoções; aceitação da experiencia emocional, onde se induz à aceitação das experiências; promoção da expressão das emoções, insere-se na ajuda para descrever os sentimentos em palavras, e por último, identificação da experiência, que resulta da necessidade de levar o indivíduo a aperceber-se das suas reações emocionais (Greenberg, 2002).

 

Reforçando esta perspetiva, Berking (2010) salienta que as intervenções que se focam especificamente em melhorar as competências da regulação da emoção, têm demonstrado ser efetivas para uma variedade de desordens mentais, ou seja a aplicação bem-sucedida de competências adaptativas da regulação da emoção apresenta capacidade preditiva de saúde mental e bem-estar seis semanas após o treino destas competências de regulação emocional (Berking et al., 2008a). Consequentemente, a utilização de estratégias desadequadas de regulação da emoção, como a resignação, ruminação, catastrofização e reavaliação positiva predissera o desenvolvimento de sintomas depressivos ao fim de dois anos e meio (Kraaij, Pruymboom & Garnefski, 2002, as cited in Berking, 2010).

 

Neste enquadramento, Berking (2010) menciona que as duas competências de regulação emocional mais fortemente associadas com o bem-estar e a saúde mental, são a capacidade de modificar ativamente emoções negativas e a capacidade para aceitar e tolerar emoções negativas. Berking e colaboradores (2010), mencionam que a terapia cognitiva comportamental destinada a melhorias nestas competências está consistentemente associada com resultados positivos no tratamento da regulação emocional.

 

Neste sentido, para Gross (2002) a mudança noética e cognitiva refere-se à alteração da forma como os indivíduos avaliam a situação em que se encontram, de modo a alterar a sua importância emocional, quer mudando a forma como pensam em relação à situação, quer relativamente à sua capacidade de gerir as questões que surgem. No Coaching de regulação emocional, a forma de mudança cognitiva que tem recebido especial atenção é a reavaliação, pelo facto de esta envolver a mudança do significado da experiência emocional de uma determinada situação (Gross, 2002). Emerge aqui a importância da modificação do preconceito cognitivo em relação a uma ou várias emoções, sendo relevante modificar estes preconceitos de processamento numa direção mais hedonicamente favorável (MacLeod et al., 2009, as cited in Koole et al., 2011).

 

O Coaching da Regulação Emocional na Promoção de Resultados

 

Como tem vindo sendo referido acerca do coaching, é cada vez mais claro que certos processos emocionais, como a regulação emocional, ajudam a promover a mudança terapêutica (Greenberg, Korman & Paivio, 2001, as cited in Greenberg, 2002). Posto isto, consideramos importante estudar de seguida quais podem ser os progressos ou resultados advindos com a mudança terapêutica além da própria regulação emocional.

 

Nesta perspetiva, são sugeridos na literatura três domínios importantes para verificar o progresso dos clientes na psicoterapia e por consequência a eficiência, a eficacia da mesma, ou seja os ganhos do cliente na mudança terapêutica (Lambert & Forman, 2002, as cited in Carvalho & Rocha, 2009). Estes três domínios, de acordo com Carvalho e Rocha (2009) são o desconforto subjetivo, os relacionamentos interpessoais e o desempenho do papel social (Quadro 5), que apresentam elevada sensibilidade, validade e fidedignidade para avaliar a eficiência, efetividade e eficácia do processo de coaching (Carvalho & Rocha, 2009) e propõem um continuum dos sentimentos/sensações que o indivíduo experiencia internamente, na forma como procede com os outros significativos e com as tarefas ao nível pessoal e profissional (Machado, Klein & Farate, 2005).

 

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